quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Seu Aécio



Conheci o Seu Aécio em 2009, em São José dos Campos.

Ele me mostrou como se vendia apartamento. "Você tem que entender que esse é o sonho da pessoa, então coloque emoção quando for apresentar a maquete. Faça a pessoa se sentir no próprio lar, quando entrar no apartamento decorado", dizia ele.

Seu Aécio era manco.
Desses mancos bem mancos. Ele jogava a perna pro lado e depois pra frente. Era assim que ele dava um passo. Uma vez perguntei o que tinha acontecido e ele me disse que foi ferimento a bala. Tinha servido o Exército e em um confronto com os inimigos, acabou perdendo um pedaço da perna.
E então começou a contar sobre a época de militar.

Seu Aécio era paciente e calmo.
As pessoas se alteram e ele continua ali, sereno. Perguntava como ele conseguia ficar daquela maneira, sem se deixar influenciar pelos ânimos exaltados ao redor. E ele me disse que ficou assim depois que voltar de um mosteiro. 
- O Sr. era monge?
- Sim, usava roupa de monge e fiquei careca.
E então começou a contar sobre a época de clausura.

Seu Aécio era um contador de história.
Toda a vez que chegava perto de mim, contava alguma coisa que aconteceu em sua vida, digna de filme.
Chegou a me contar da época do mosteiro, em que colocaram ele e mais dois amigos dentro de um poço, sem nenhum tipo de comida, só água. Ficaram ali três dias. Quando finalmente os puxaram de volta, havia um banquete posto para eles. Os dois amigos correram ao encontro da comida. Seu Aécio não. Ele perguntou ao monge onde poderia lavar a mão e o rosto, e depois foi comer o resto que os amigos haviam deixado pra ele. 

Seu Aécio era um mentiroso.
Descobri que tudo o que ele me contava não era verdade.
Ele era manco de nascença.
Ele nunca foi monge.
Ele era apenas um homem da terceira idade, aposentado, que não queria ficar em casa, então preferiu passar as tardes em um plantão de vendas, mostrando apartamentos.

Seu Aécio era magnífico.
Sinto saudades de sua sabedoria singela.

Nenhum comentário:

Postar um comentário