quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Despertar

Bento estava arrumando seu quarto quando achou uma caixa azul petróleo cheia de mofo. Quando abriu, havia apenas um papel dobrado e colado com fita adesiva e escrito por fora: "Abrir somente depois dos 30 anos".

Ele não se lembrava daquilo.

Rasgou o lacre e encontrou um Bento de 12 anos atrás.

Bento se lembrou.

Foi ao banheiro e raspou o cabelo.

Bento não queria mais fazer as mesmas coisas, agir da mesma forma. Naquela manhã de sexta-feira, estabeleceu a meta de alterar sua rotina radicalmente. Seus hábitos não seriam mais os mesmos.

Trocou o metrô  pelo ônibus. Não queria mais ver apenas um túnel negro pela janela lacrada.

O café com leite agora virou suco de melancia.

As ruas mudaram de nome. Voltaram a ser a São Sebastião, depois Mario Crisol Donha e por fim Pirassununga. 

No escritório, conversou com todos aqueles que sempre via, mas sequer sabia o nome. Começou no elevador. Deu bom dia a todas aquelas pessoas rostos tão familiares e ao mesmo tempo neutros e que não lhe diziam nada.

O gosto musical não tinha mais padrão. A playlist da sua vida nunca mais se repetiria.

Bento pediu demissão, e trocou o ar condicionado e a persiana encardida pela brisa aconchegante de um fim de tarde.

Bento trocou o tédio de um domingo a noite, pela euforia de uma sexta-feira.

Bento decidiu viver daquela maneira que ninguém tem coragem. Largando tudo, sem lugar pra segurar caso algo dê errado. Sem porto seguro, sem apólice, sem segunda chance.

E no fim, Bento percebeu que o que realmente importa é...

é....

.....é

...é o que mesmo?


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