domingo, 25 de maio de 2014

Desejo o silêncio

Neste ano já recomecei diversas vezes e tentei ser diferente outras tantas. Apaguei mil e-mails, deletei centenas de mensagens, exclui dezenas de fotos, dei fim em algumas pastas e segui em frente.

Neste ano já regredi uma porção de vezes. Adicionei de novo, inseri na lista de contatos e apertei "restaurar da lixeira".

Neste ano já me revoltei. Desisti de amigos, xinguei uns aqui, gritei com outros acolá, cansei de outros ali, tudo por pura canseira de mim mesma.

Neste ano já pensei em desistir da faculdade. Mandar o TCC pro espaço, trancar meu curso e sair correndo pra algum lugar que nem sei qual é.

Neste ano já fiz tantos planos para mim mesma que não cumpri..."vou voltar para o curso de inglês", "vou fazer academia", "vou acordar mais cedo e ir caminhar", "vou ser mais paciente com meus pais", "vou ser mais delicada com minhas palavras", "vou ser mais empática com as pessoas", "vou ser mais dedicada nos estudos", "eu vou", "eu vou", "eu vou"...

E em meio a tantas promessas, a única coisa que desejo é o silêncio.

Queria que as reclamações cessassem, que meus olhos parassem de tremer, que meu estômago não queimasse, que minha perna parasse de repuxar e que o gosto de ferro da minha boca sumisse pra dar lugar ao gosto açucarado do bolo Cuca da minha vovó.

Queria que esse ano passasse como em um piscar de olhos, e que todas as decisões sobre meu futuro depois de dezembro já estivessem resolvidas.

Queria que a dor que estou sentindo no meu coração sumisse agora, e que a raiva, a mágoa e a tristeza fossem junto.

Eu queria tanta coisa...mas o que mais desejo mesmo, é o silêncio.

"Tem coisa que só cura quando dói".




sexta-feira, 2 de maio de 2014

Sobre meus 15 minutos de fama com a morte do Senna

Eu me lembro de muitas coisas que aconteceram naquele 1º de maio de 1994 e os dias que se sucederam também, apesar de ter apenas 4 anos.

Eu estava na sala de TV com meu pai, e assistíamos a Fórmula 1. Ele com mais afinco do que eu, com certeza.

E então ele solta a frase que me marcou muito e nem sei por quê:
 - “Ih! Bateu!”.

Pra minha cabeça de criança tinha sido só mais uma batida de corrida. Meu pai repetia sem parar: “ele morreu, ele morreu”.

Depois disso minha memória já vai direto para o enterro dele. Eu morava no Morumbi na época, na Rua Antonio Aggio nº 400, e da sacada do meu quarto eu via o cemitério do Morumbi, e consequentemente, o enterro do Senna.

Enquanto eu olhava tudo da minha varanda, a televisão na sala passava a cobertura de tudo o que acontecia, e pelo que me recordo, era o Galvão Bueno que narrava.

Eu e meu irmão estávamos animados com tudo aquilo. O helicóptero da Rede Globo estava perto do meu prédio e eu corri chamar o brother pra dar tchau para as câmeras.

- Não, vamos fingir que estamos chorando, para eles nos filmarem, disse o irmão sábio de 6 anos.

Fomos para a sacana e começamos a fingir o choro. De repente eu escuto o Galvão falando:
- Veja o rosto triste das nossas crianças.

E foi assim que tive meus 15 minutos de fama =)




terça-feira, 22 de abril de 2014

Sobre um fim

Hoje o celular não tocou as 6h da manhã com você me dando "bom dia" e dizendo que está com preguiça de levantar. Também não vibrou as 6h30 com você dizendo para eu parar de ser dorminhoca e levantar da cama para não me atrasar. As 7h não recebi a mensagem de "to indo pra academia" e as 8h30 não me falou "estou indo para o escritório".

Cheguei 15 minutos atrasada no trabalho hoje. Não, não foi porque não consegui acordar. Na verdade nem consegui dormir. Quando cheguei na minha mesa, olhei para o celular e lá não havia "e aí, chegou? bom dia de trabalho para nós dois :)".  

Não sei o que você almoçou, se está com muito trabalho, se teve que ir ao Fórum levar alguns processos ou se a secretária fez outra cagada e você está bravo por conta disso. Não tenho ideia que horas vai chegar em casa hoje e o que vai fazer depois que tomar banho e jantar. Você foi para a faculdade?

A última ligação do dia não vai ser mais a minha e as suas mensagens não estão mais na minha caixa de entrada. 

Nada disso pertence a mim agora, nada disso tem a ver comigo. 

Depois de quase 10 meses, 286 dias e mais de 500 ligações, acabou.

Tentei encontrar uma música que representasse os meus sentimentos agora, afinal, sempre há uma música certo? Mas hoje não teve. O silêncio prevaleu, assim como os segundos finais da nossa última ligação. 

Pareço um tanto dramática agora, mas há momentos na vida que é preciso tomar decisões duras, daquelas que a gente nunca quer tomar. Eu, por exemplo, não queria.

Não queria ter aquela conversa séria, e dizer que não aguentava mais seguir daquele jeito. Não queria dizer que cansei de esperar por algo que provavelmente nunca ia acontecer. Na real nem é a espera, mas o que há no final dela. E eu não ia suportar uma frustração, não depois de tanto tempo.

Só queria dizer que você foi o primeiro menino que eu gostei de verdade. O primeiro que desejei que estivesse ao meu lado. O primeiro que sonhei e que fiz planos. E foi o primeiro que me machucou e que me fez chorar.

Nós não vamos mais a um grande show juntos. Não vou te mostrar São Paulo e você não vai me ensinar a fazer chimarrão.

Aquilo que eu tanto esperei, não chegou. Hoje parei de olhar pela janela.



quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Despertar

Bento estava arrumando seu quarto quando achou uma caixa azul petróleo cheia de mofo. Quando abriu, havia apenas um papel dobrado e colado com fita adesiva e escrito por fora: "Abrir somente depois dos 30 anos".

Ele não se lembrava daquilo.

Rasgou o lacre e encontrou um Bento de 12 anos atrás.

Bento se lembrou.

Foi ao banheiro e raspou o cabelo.

Bento não queria mais fazer as mesmas coisas, agir da mesma forma. Naquela manhã de sexta-feira, estabeleceu a meta de alterar sua rotina radicalmente. Seus hábitos não seriam mais os mesmos.

Trocou o metrô  pelo ônibus. Não queria mais ver apenas um túnel negro pela janela lacrada.

O café com leite agora virou suco de melancia.

As ruas mudaram de nome. Voltaram a ser a São Sebastião, depois Mario Crisol Donha e por fim Pirassununga. 

No escritório, conversou com todos aqueles que sempre via, mas sequer sabia o nome. Começou no elevador. Deu bom dia a todas aquelas pessoas rostos tão familiares e ao mesmo tempo neutros e que não lhe diziam nada.

O gosto musical não tinha mais padrão. A playlist da sua vida nunca mais se repetiria.

Bento pediu demissão, e trocou o ar condicionado e a persiana encardida pela brisa aconchegante de um fim de tarde.

Bento trocou o tédio de um domingo a noite, pela euforia de uma sexta-feira.

Bento decidiu viver daquela maneira que ninguém tem coragem. Largando tudo, sem lugar pra segurar caso algo dê errado. Sem porto seguro, sem apólice, sem segunda chance.

E no fim, Bento percebeu que o que realmente importa é...

é....

.....é

...é o que mesmo?


quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Seu Aécio



Conheci o Seu Aécio em 2009, em São José dos Campos.

Ele me mostrou como se vendia apartamento. "Você tem que entender que esse é o sonho da pessoa, então coloque emoção quando for apresentar a maquete. Faça a pessoa se sentir no próprio lar, quando entrar no apartamento decorado", dizia ele.

Seu Aécio era manco.
Desses mancos bem mancos. Ele jogava a perna pro lado e depois pra frente. Era assim que ele dava um passo. Uma vez perguntei o que tinha acontecido e ele me disse que foi ferimento a bala. Tinha servido o Exército e em um confronto com os inimigos, acabou perdendo um pedaço da perna.
E então começou a contar sobre a época de militar.

Seu Aécio era paciente e calmo.
As pessoas se alteram e ele continua ali, sereno. Perguntava como ele conseguia ficar daquela maneira, sem se deixar influenciar pelos ânimos exaltados ao redor. E ele me disse que ficou assim depois que voltar de um mosteiro. 
- O Sr. era monge?
- Sim, usava roupa de monge e fiquei careca.
E então começou a contar sobre a época de clausura.

Seu Aécio era um contador de história.
Toda a vez que chegava perto de mim, contava alguma coisa que aconteceu em sua vida, digna de filme.
Chegou a me contar da época do mosteiro, em que colocaram ele e mais dois amigos dentro de um poço, sem nenhum tipo de comida, só água. Ficaram ali três dias. Quando finalmente os puxaram de volta, havia um banquete posto para eles. Os dois amigos correram ao encontro da comida. Seu Aécio não. Ele perguntou ao monge onde poderia lavar a mão e o rosto, e depois foi comer o resto que os amigos haviam deixado pra ele. 

Seu Aécio era um mentiroso.
Descobri que tudo o que ele me contava não era verdade.
Ele era manco de nascença.
Ele nunca foi monge.
Ele era apenas um homem da terceira idade, aposentado, que não queria ficar em casa, então preferiu passar as tardes em um plantão de vendas, mostrando apartamentos.

Seu Aécio era magnífico.
Sinto saudades de sua sabedoria singela.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Que chegue logo




Que chegue logo o Natal.
Que chegue logo o ano novo.
Que chegue logo o carnaval, a páscoa, as férias, a copa.

Que passe logo as aulas.
Que passe logo o expediente.
Que passe logo os fins de semana e seus rolês.

Que seja mais rápido que o mês de agosto, mês do desgosto.
Que seja mais rápido que o mês de setembro e suas primaveras intermináveis.
Que seja mais rápido que o mês de outubro e suas bruxas.
Que seja mais rápido que novembro e seus feriados.
Que seja mais rápido que dezembro e suas festividades.

Que chegue logo, passe logo e que vá embora, logo.

Que seja o que será e que não seja o que não deve ser.

Apenas seja. E chegue.




quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Sobre uma pessoa bárbara




Eu ia escrever um “Parabéns gata, te amo” no seu mural do Facebook, mas seria só mais um nos 352 recados com a mesma mensagem. Não, você merece e representa muito mais do que isso na minha vida.

Nos conhecemos em fevereiro de 2011, veja, o Facebook não mente:


E me recordo exatamente a forma que te conheci. Você era nova na sala, chegou depois das aulas começarem, queria saber se tinha perdido muito matéria. Depois desse dia, a senhorita nunca mais se desgrudou do nosso “grupinho”.

Já se passaram dois anos e oitos meses de amizade com gostinho e vivências de bodas de ouro. Histórias que nossos netos nem vão acreditar. Foram choros, risadas, brigas e parcerias que ficarão gravadas pra sempre.

E depois que 2012 passou, eu tive a certeza de que quero e vou te levar além das catracas da Metodista. Você é aquela que agradecemos a Deus por ter colocado no caminho.


Obrigada por compartilhar sua vida comigo, por me escutar, por estar perto quando mais precisei e por ser tão assim...tão bárbara.

Te amo gata! Você é essencial na minha vida.

PS: Parabéns!!!